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Reflexão: Paragone e Autonomia das Artes

O paragone das artes é uma discussão antiga, que recebeu muita atenção no período do Renascimento. Para o pintor Giorgio Vasari, em 1550, a resolução desta disputa não estava na pintura, ou na escultura, mas sim no disegno . Traduzindo a palavra para o português como desenho, fica difícil compreender o que Vasari quis dizer – a primeira vista, parece-nos que ele simplesmente elegeu o risco de carvão sobre papel como a melhor das artes. Mas essa definição é demasiado pobre para o significado que o termo tem em Vasari. As primeiras palavras de seu texto O Primado do Desenho já demonstram isso: o disegno seria “oriundo do intelecto”, ou seja, seria um conceito . Mas não somente isso; ele seria “o pai de todas as artes” justamente por ser a primeira instância na qual esse conceito é materializado – o que chamaríamos hoje de esboço . Partindo dele, o artista poderia escolher qualquer meio para finalizar sua obra: um desenho a carvão poderá dar origem a um quadro a óleo; uma modelagem em...

Reflexão: A Crise no Renascimento

O Renascimento é tradicionalmente descrito através da suposta imitação da natureza e do retorno aos clássicos realizados por seus artistas. De fato, durante os anos 1400, teóricos e artistas como Alberti e Brunelleschi almejavam uma arte que possuísse ambos esses aspectos. A formulação da perspectiva seria o mais perfeito fruto dessa ambição: um sistema de regras matemáticas que ordena o mundo de forma racional e necessária, compreendendo e organizando a realidade. Esses artistas, então, representam o mundo natural através de uma formulação geométrica, o que resulta em uma natureza idealizada e, portanto, perfeitamente harmônica e equilibrada, eminentemente estética, como desejavam os antigos clássicos. O problema com essa definição de Renascimento acontece quando nos deparamos com artistas que parecem não só ignorar essas diretrizes, como verdadeiramente colidir com elas. Observando a obra de Leonardo da Vinci, por exemplo, é inconcebível pensar que sua arte seguisse qualquer fo...

Reflexão: Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova (1931)

            O Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova foi escrito em 1931, mas os problemas e soluções apresentados em seu texto continuam extremamente atuais. A intersecção entre os temas tratados nele e os discutidos em nossas aulas de POEB são inúmeras.             O Manifesto inicia por dizer que, de todos os problemas nacionais, a educação é o mais importante e o mais grave – ela é a base das gerações futuras de um povo que, por sua vez, graças a ela terão condições de resolver os demais problemas do país. No entanto, a organização escolar do Brasil em 1932 (e, não muito diferentemente, hoje) era incapaz de lidar com as “necessidades modernas e necessidades do país”, principalmente porque o sistema educacional encontrava-se fragmentado e desarticulado. Todas as propostas de reforma do ensino até a publicação do Manifesto eram parciais, isoladas, sem uma visão global do...

Análise das artistas Arlene Shechet & Rachel Kneebone

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  ENSAIO COMPARATIVO SOBRE DOIS CERAMISTAS CONTEMPORÂNEOS ARLENE SHECHET & RACHEL KNEEBONE   O trabalho de Arlene Shechet (1951, Nova York, EUA) é dar personalidade a algo que, em seu estado natural, não possui nada de belo.   É ela mesma quem afirma isso, referindo-se ao trabalho em cerâmica: “por conta disso, eu posso inventar qualquer coisa” [1] . O curioso é que, se a argila em estado natural é amorfa, também o são as esculturas de Shechet. Lembram órgãos humanos, tumores, e coisas que algum dia já tiveram propósito, mas que, agora, derretidas, torcidas, fundidas, perderam sua funcionalidade.   Fotografia da instalação “Arlene Shechet: All at Once” no ICA Boston, de Arlene Shechet (2015)   Nos anos 1990, durante um dos períodos mais difíceis de sua vida – seu pai sofria de problemas cardiovasculares e outros dois amigos próximos estavam com doenças em estágio terminal – Shechet encontrou consolo em filosofias orientais e no trabal...